Nutrition News for Africa
31 de Outubro, 2006
Um artigo da autoria de Collins S et al. e intitulado “Manejo
da Desnutrição Aguda e Grave em Crianças”
foi publicado na edição do dia 26 de Setembro
de 2006 em The Lancet.
A Desnutrição Aguda Severa (DAS), é
definida como o rácio peso-altura de 70% ou menos abaixo
da mediana, ou 3 DP (desvio padrões), ou abaixo da
média dos valores de referência do National Center
for Health Statistics; ou ainda a presença de edema
de origem nutricional, ou um perímetro braquial inferior
a 110 mm em crianças de 1-5 anos. Nos países
em desenvolvimento as taxas de casos fatais nos hospitais
que tratam a DAS são em média de 20-30% e estes
valores têm-se mantido inalterados desde a década
de 1950, apesar de a 30 anos existirem protocolos de gestão
clínica capazes de reduzirem as taxas de fatalidade
para 1-5%.
Enquanto que o movimento de sobrevivência infantil
normalmente reconhece a importância da desnutrição,
a importância da desnutrição aguda raramente
é mencionada. A nível mundial há cerca
de 60 milhões de crianças que sofrem de desnutrição
aguda moderada e 13 milhões que sofrem de desnutrição
aguda severa. Cerca de 9% das crianças subsaharianas
e 15% das crianças do sul da Àsia sofrem de
desnutrição aguda moderada e cerca de 2% das
crianças dos países em desenvolvimento sofrem
de DAS.
Em termos de cuidados clínicos da DAS, de momento
recomenda-se a hospitalização exclusiva como
a melhor abordagem. Os protocolos de manejo da OMS consistem
em duas fases (estabilização e reabilitação).
Há evidência de que estes protocolos podem diminuir
susbstancialmente as taxas de casos fatais, tanto em ambientes
estáveis como em intervenções humanitárias
de emergência, mas certos estudos também sugerem
que a disponibilidade de recursos suficientes, particularmente
técnicos de saúde treinados e motivados é
um aspecto vital para o sucesso e para a eficácia dos
programas. Em 20 dos países africanos mais afectados
pela desnutrição aguda há menos de 4
médicos e 22 enfermeiros por cada 100 000 habitantes.
Na prática, a escassez de técnicos treinados
normalmente impede a implementação eficaz e
sustentável das directrizes da OMS relativas ao manejo
da DAS. Na década de 1970 estes problemas levaram ao
deslocamento do tratamento da DAS dos hospitais para as comunidades.
Os resultados desta política foram mistos, mas a recente
criação de suplementos (alimentos) terapêuticos
prontos-a-usar facilitou imenso na resolução
das dificuldades associadas com o fornecimento de alimentos
com elevado valor energético e nutritivos, que sejam
também adequados e seguros para utilização
em programas de tratamento ambulatório.
Durante os últimos 5 anos um número cada vez
maior de países e de ONGs adoptou um modelo para o
manejo da desnutrição aguda baseado na comunidade,
chamado cuidados terapêuticos com base na comunidade.
Este modelo fornece uma estrutura para uma resposta integrada
de saúde pública de combate à desnutrição
aguda, tratando a maioria dos pacientes com DAS apenas como
externos e reservando a hospitalização dos pacientes
para os casos de DAS com complicações. Este
modelo procura também integrar o tratamento com várias
outras intervenções dirigidas à redução
da incidência da desnutrição e à
melhoria da saúde pública e da segurança
alimentar, e demonstrou ser promissor como intervenção
de assistência a crianças com DAS e simultaneamente
infectadas com HIV. A utilização do perímetro
braquial como único indicador para rastreio e admissão
nos cuidados terapêuticos com base na comunidade, ajuda
à comunidade a devolver responsabilidade pela selecção
dos pacientes. Estas novas abordagens para o manejo da DAS
têm reduzido bastante as taxas de casos fatais e os
dados iniciais indicam que são muito rentáveis.
O autor recomenda que: A OMS adopte o termo “desnutrição
aguda”, que a agenda para a sobrevivência infantil
dê maior prioridade ao tratamento da DAS, que exista
melhor comunicação em relação
ao facto de existirem intervenções rentáveis
e de sucesso para a DAS; e que um indicador apropriado da
desnutrição aguda, como o perímetro braquial,
deveria ser integrado em programas de diagnóstico da
desnutrição aguda de forma mais eficaz. O autor
conclui que não será possível atingir
os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio de redução
da mortalidade infantil em dois terços a menos que
o problema da DAS seja enfrentado de forma eficaz.
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